Diante da necessidade de mais soluções de flexibilidade para a operação do sistema elétrico, fruto do crescimento da participação das fontes intermitentes de energia renovável, mas não só por isso, a ampliação da participação dos consumidores em programas de resposta da demanda tornou-se uma política não somente bem-vinda, mas também prioritária, seja para a gestão do atendimento na ponta, seja para prover mais eficiência e melhores preços. Há resultados concretos, mesmo que ainda tímidos diante do potencial, e caminhos para avançar para superar barreiras regulatórias, culturais e estruturais.
Essa visão foi oferecida por Jovanio Santos (GridXperts), Evelina Neves (ONS) e Victor Iocca (Abrace) que foram, respectivamente, palestrante e debatedores da live realizada pela Abraceel no dia 14.10 para discutir a resposta da demanda como uma das soluções para prover flexibilidade à operação do sistema elétrico nacional. Os três especialistas apontaram oportunidades para comercializadores e agregadores atuarem com mais soluções e que o caminho para isso é superar o desconhecimento dos consumidores, a ausência de definições mais claras para o papel dos agregadores e o desenho limitado – mas em constante atualização – dos produtos atuais.
Melhor definição de conceitos ajudaria agregador a ofertar múltiplos serviços
Jovanio dos Santos destacou que a crescente inserção de fontes renováveis, como solar e eólica, cria exigências para a operação do sistema elétrico, já que trazem energia a custos mais baixos, mas sem a flexibilidade das térmicas ou hidráulicas. A resposta da demanda é central para ajudar a equilibrar o sistema e ampliar o resultado da transição energética. Segundo ele, há dois modelos principais de programas – baseados em preços ou em incentivos – e que há muito espaço para ambos no Brasil, sobretudo para agregadores, que poderiam ofertar inúmeros serviços, entre eles aplicações zonais ou locais de curto prazo, serviços de capacidade, respostas de frequência primária, secundária e terciária, reserva de frequência, frequência de contingência e muitos outros.
O CEO da GridXperts indicou que é importante definir com clareza conceitos para que o agregador possa deslanchar – diretriz que foi adotada em mercados maduros, como os europeus.
ONS quer opinião prévia dos comercializadores para melhorar próximo edital
Evelina Neves ressaltou que o programa estrutural de resposta da demanda, em vigor desde 2022, voltado para produtos de curto prazo, já mostra resultados. O ONS aprovou 750 ofertas de redução de consumo, entre 2.840 ofertas analisadas, com valores entre R$ 99 e R$ 2.000 por MWh, envolvendo mais de 70 empresas. Ela explicou que a evolução mira novos produtos, como disponibilidade, que está sendo testado em um sandbox regulatório autorizado pela Aneel que terminará no fim de 2026. Há intenção de ampliar produtos associados à resposta da demanda e fortalecer a participação dos agregadores, já que esses podem moldar pacotes de flexibilidade, reduzir barreiras de entrada e democratizar o acesso dos consumidores.
Nesse sentido, a executiva do ONS propôs para a Abraceel a realização de reuniões com participação dos comercializadores para capturar melhorias que possam impulsionar o resultado da resposta da demanda, o que foi aceito pela Abraceel. O ONS prepara um “mecanismo competitivo” para o segundo semestre de 2026, com expectativa de “colocar o edital na praça em fevereiro de 2026”, com discussão prévia com associações para melhorar os produtos.
Desinformação e resistências culturais são desafios a serem superados
Victor Iocca analisou o histórico de desenvolvimento da resposta da demanda no Brasil e que houve evoluções em função de aprendizados – ele citou barreiras anteriores, como “necessidade de rampa de entrada” para iniciar entrega do produto e nível mínimo de consumo mínimo. O especialista sugeriu que os comercializadores se envolvam mais no sandbox regulatório em curso para aproveitar a oportunidade de impulsionar a resposta da demanda. Ele indicou como barreiras a serem superadas o relativo desconhecimento e resistências internas nas empresas consumidoras para trocar produção por receita com a venda da energia, o que exige mudança cultural também.
Iocca vê oportunidades especialmente entre indústrias com processos elétricos mais flexíveis, como as de ferroligas ou as que passaram por processo de eletrificação de caldeiras, e destacou a oportunidade de integração entre os mercados de eletricidade e gás, considerando a ociosidade de cogerações no país – aspecto que foi inicialmente apontado por Jovanio Santos. E que a participação de todos os agentes é essencial para solucionar as barreiras e “atingir o sonho” de 1 GW contratado na resposta da demanda.
