A Abraceel realizou no dia 16 de dezembro live para discutir os caminhos para a expansão das soluções de armazenamento no Brasil, onde as baterias ganham destaque, para oferecer mais flexibilidade ao sistema. A discussão passou por temas como avanços tecnológicos, novas linhas de negócios para os comercializadores e demais agentes, perspectiva de redução de custos, agenda regulatória e os cenários para a consolidação dessa solução no país.
O evento contou com a participação de Alexandre Viana (Envol) como palestrante e de Caio Monteiro (EPE), Markus Vlasits (ABSAE), Carlos Augusto Leite Brandão (ABAQUE) e Zebedeu Fernandes (Matrix) como debatedores. Eles apontaram que o “roadmap” para esse novo mercado passa uma série de melhorias e avanços, entre eles mudanças na estrutura de formação de preços, incluindo ajustar o modelo de formação de preços e adotar sinais de preço horários e locacionais, fazendo-os chegar “efetivamente até os consumidores”; viabilizar o empilhamento de receitas; regulamentar os serviços ancilares prestados pelas baterias, avançar no aperfeiçoamento da resposta da demanda.
Além disso, sugeriram melhorar o desenho e aperfeiçoar as regras dos leilões de capacidade e permitir a participação de projetos híbridos em leilões, mas sem deixar de realizar o primeiro leilão de baterias, mesmo que imperfeito. Outras propostas apontadas foram garantir clareza da regulação sobre rateio de custos e encargos, criar condições para financiamento via project finance e acelerar o processo de certificação do BNDES; entre outras ações.
Os objetivos são dar previsibilidade e diversidade de receitas aos projetos, com modelos de negócios estáveis e com regras regulatórias precisas, e oferecer condições para que haja escala na expansão das soluções de armazenamento via baterias no mercado elétrico brasileiro.
Panorama internacional e desafios do mercado brasileiro
A palestra de abertura foi conduzida por Alexandre Viana, CEO da Envol Energy Consulting, que apresentou um panorama do armazenamento no contexto global e no Brasil. Segundo Viana, as baterias já atingiram maturidade tecnológica e forte redução de custos em função do ganho de escala internacional, especialmente na China, onde a produção voltada inicialmente ao setor automotivo acabou impulsionando o uso no setor elétrico.
Apesar disso, o executivo destacou que o principal desafio brasileiro não é técnico, mas econômico e regulatório. Viana explicou que o modelo brasileiro de despacho por custo e a ausência de preço por oferta dificultam a formação de modelos de negócio baseados em arbitragem de preços, sobretudo para projetos de armazenamento em grande escala fora do ambiente de leilões. Nesse contexto, o leilão de reserva de capacidade foi apontado como um instrumento necessário para destravar os primeiros projetos, ainda que limitado para capturar todo o valor da flexibilidade no longo prazo.
Planejamento e requisitos do sistema
Caio Monteiro, Superintendente Adjunto de Geração de Energia da EPE, destacou que a discussão sobre armazenamento está diretamente associada à crescente necessidade de capacidade e flexibilidade do sistema elétrico, em função da rápida expansão das fontes renováveis intermitentes.
Segundo ele, a EPE vem desenvolvendo estudos desde 2018 com o objetivo de subsidiar a formulação de políticas públicas e apoiar o Ministério de Minas e Energia na avaliação dos requisitos futuros do sistema. Monteiro ressaltou que o armazenamento surge como uma das alternativas para atender a esses requisitos, ao lado de outras soluções, como resposta da demanda, e que o avanço dessa agenda depende da integração entre planejamento energético, regulação e instrumentos de contratação adequados.
Visão das associações de armazenamento
Markus Vlasits, Presidente da Associação Brasileira de Armazenamento de Energia (ABSAE), enfatizou que o armazenamento deve ser entendido como um conjunto de soluções tecnológicas, e não apenas como baterias eletroquímicas. Ele destacou que, embora as baterias sejam hoje a tecnologia mais madura e competitiva, outras soluções também podem ganhar espaço ao longo do tempo.
Vlasits ressaltou que sistemas de armazenamento já são capazes de prestar serviços relevantes à estabilidade da rede, como controle de tensão, suporte à frequência e aumento da resiliência do sistema, experiências já observadas em mercados internacionais. Para ele, o avanço do armazenamento no Brasil depende de arranjos regulatórios simples, com clareza jurídica, que permitam a implantação dos primeiros projetos e a evolução gradual do modelo.
Já Carlos Augusto Leite Brandão, presidente da Associação Brasileira de Armazenamento e Qualidade de Energia (ABAQUE), disse que a falta de coordenação entre a expansão das fontes renováveis e a inserção de soluções de flexibilidade, como o armazenamento, tem gerado impactos diretos sobre a qualidade do suprimento e os custos para os consumidores.
Brandão destacou que o armazenamento já vem sendo utilizado em aplicações no lado do consumo, como melhoria da qualidade de energia e redução de impactos associados a oscilações do sistema, mas que a ausência de uma política mais estruturada tem atrasado sua adoção em maior escala. Para ele, é fundamental que o setor avance de forma preventiva, e não reativa, para evitar que problemas operacionais se traduzam em custos adicionais ao consumidor final.
Perspectiva do mercado e dos comercializadores
Zebedeu Fernandes, Diretor Comercial de Grandes Clientes da Matrix, destacou o interesse crescente por soluções que agreguem flexibilidade, previsibilidade de custos e segurança no suprimento. Ele ressaltou que o armazenamento pode se tornar uma ferramenta relevante para a oferta de novos produtos e serviços aos consumidores, desde que haja condições regulatórias e econômicas para sua viabilização.
Ele explicou que, após a empresa fazer estudos com centenas de consumidores desde 2023, com análises do comportamento de carga, foi possível obter mais experiencia sobre o negócio de armazenamento no Brasil por baterias. Muitas possibilidades de aplicações foram encontradas, primeiramente no modelo “behind-the-meter”, colocando o produto no cliente sem muito crescimento de custo. Mas esse movimento tem limitações, explicou.
Ele visualizou oportunidades para aplicações na rede, por transmissoras e distribuidoras, e na mobilidade urbana. Ele defendeu viabilizar o empilhamento ao sistema, pois isso faz diferença para dar escala às baterias.
O vídeo da live está disponível no canal da Abraceel no YouTube, onde estão acessíveis outros vídeos de eventos sobre como avançar no programa de resposta da demanda e o potencial da agregação no mercado de energia elétrica brasileiro.
