Diante de um auditório lotado de representantes das empresas e da governança setorial, o Presidente-Executivo da Abraceel Rodrigo Ferreira expôs, em um discurso de 20 minutos na abertura do Agenda Setorial, realizado pela InformaMarkets no Rio de Janeiro no dia 19 de março, a crise de liquidez que atinge atualmente o mercado de comercialização de energia elétrica brasileiro – “a maior em 20 anos”.
“Vivemos no setor uma crise física, financeira e que poderá ocasionar uma crise judicial”, disse, ao explicar que há muitos problemas estruturais no setor elétrico, como os derivados do curtailment na geração de energia renovável, o risco hidrológico e impactos da micro e minigeração distribuídas. Veja um resumo do pronunciamento.
Crise de liquidez: diversos motivos e impacto também aos consumidores
Setor de comercialização vive hoje a maior crise dos últimos 20 anos. Esse problema não assola só os comercializadores, mas também geradores e consumidores.
Tem vários motivos. Curtailment é um deles. Agentes de geração precisam se proteger. Há discussão sobre o ressarcimento, mas até que essa questão se resolva, isso vai seguir impactando a liquidez.
Mas o que tem causado o maior impacto na liquidez, e tem tornado a atividade de trading impossível, é a formação de preços. Está fora da lógica.
Alguns exemplos. A representação individualizada de uma usina de 40 MW mudou o preço em R$ 100. O ONS então a retirou, mas isso evidenciou que tem um problema. Há visão favorável dos agentes à representação individualizada, mas o modelo não estava pronto para ser implementado – mas foi implementado mesmo assim.
Outros exemplos. A usina de Santa Cruz estava representada duas vezes no deck. Tiraram uma, o preço diminuiu. A carga líquida aumenta, mas o preço diminui. O momento é de corte recorde de geração, e o preço está explodindo, mas escutamos que o preço nunca reagiu tão bem.
O preço está alto e ninguém tem coragem de fazer investimento em geração. O preço muda em função do quê? Ninguém conseguem entender. Não tem mais logica fundamentalista nenhuma.
E o que acontece com o trading? Ele acaba! O trading fundamentalmente consiste na atividade de projetar preço, entender o que acontece no mercado, tomar uma posição e colocar preço no produto energia. Assim, quem precisa comprar ou vender encontra espaço para isso. Como casas diferentes enxergam cenários diferentes, há sempre alguém comprando e vendendo. Mas quando as casas não conseguem entender para onde o preço vai, ninguém coloca preço, e ao não colocar preço, não tem produto.
Houve problemas de segurança, mas soluções estão em curso
Tem uma crise de crédito também, isso é outro motivo. Houve sim irresponsabilidade de alguns agentes, que deram “passo maior que a perna”. Houve imprudência, isso tem de ser combatido e há iniciativas tratando isso, como o monitoramento prudencial e a CP 33 em curso na Aneel.
A Abraceel está oferecendo uma central de risco para monitorar 95% do volume do mercado por 17 métricas, o que será acessível a todos os associados no próximo mês.
A autorregulação será implementada no mercado de comercialização para as associadas da Abraceel, isso já foi aprovado e está em andamento.
Mas um mercado que não tem boa formação de preços é um mercado mais inseguro, é preciso ter ciência isso.
Quem vai “pagar o pato” será o consumidor
Os consumidores estão preocupados com isso, pois quem vai “pagar o pato” é o consumidor. “Não tem outro pato no setor elétrico. O pato no setor elétrico é o consumidor.”
Há atualmente preocupação com preço de combustível, mas e o preço da energia elétrica? É com esse preço que será implementada a política pública da abertura aprovada do mercado pelo Congresso Nacional?
Cerca de um terço dos contratos tem prazo de até dois anos. Por mais que o consumidor tenha de se planejar, tem uma hora que o contrato acaba. O consumidor espera a janela abrir para fazer uma nova contratação, mas a janela não abre porque não tem oferta.
Poder de mercado e flexibilidade na obrigação de contratação de 100%
A flexibilidade na obrigação de contratar será importante, conforme aprovado na lei (15.269/2025). Se alguém é obrigado a comprar, como fazer se quem vende não é obrigado a vender? Quem é obrigado a comprar ficará exposto – e exposto a um PLD alto?
Chegam para mim denúncias de que há uma ação premedita, que não é coincidência, que é um processo para criar uma crise artificial de liquidez. Pois está muito confortável liquidar a energia no mercado de curto prazo por R$ 400. O PLD não deveria ser o preço da energia, ele é a valoração do residual.
Será neste contexto que a discussão sobre preço por oferta vai avançar? Com esse cenário de poder de mercado? Além de poder vender ou não vender quando quiser, ainda haverá poder para determinar qual será o custo?
Equilíbrio no custo da segurança energética
Os modelos não entregam o que precisam, são problemas estruturantes que requerem solução estruturante. Mas tem discussão de curto prazo importante, como o da aversão ao risco para 2027.
Há um “trade off” entre segurança e custo. Há decisões discricionárias que mudam critérios e parâmetros sem olhar o custo. Temos de olhar o custo também, não só segurança. Pois custo vira preço.
Tem um “trade off” e um ponto de equilíbrio. Ninguém quer ficar abaixo do ponto de equilíbrio e enfrentar um racionamento, e ninguém quer ficar acima e ter um preço exagerado. É necessário oferecer à sociedade a segurança que ela precisa ao menor custo, sinalizou Rodrigo ao finalizar sua fala.
Paineis com Abraceel discutiram também formação de preços, planejamento e governança
Executivos da Abraceel participaram de outros painéis do Agenda Setorial, realizado pela InformaMarkets.
Alexandre Lopes, Vice-Presidente de Energia da Abraceel, moderou o painel sobre formação de preços, com a participação de Donato Filho ( Volt Robotics), Fernando Coli (MME), Rodrigo Sacchi (CCEE), Felipe Calabria (Aneel) e Alexandre Zucarato (ONS).
Lopes destacou a perda de referência dos sinais de preços, relacionada ao problema de convergência dos modelos, onde pequenas alterações nos dados de entrada têm gerado variações desproporcionais no preço, muitas vezes no sentido contrário ao esperado. Também foram discutidos diversos temas como a calibração do CVaR, o problema do Weol, a fixação do número de iterações do Newave, os desvios da operação, a proposta de dupla contabilização, os limites do PLD e a estruturação da área de preços do ONS.
Frederico Rodrigues, Vice-Presidente Executivo da Abraceel, moderou painel sobre planejamento e governança que contou com participação de Angela Gomes (PSR), Christiano Vieira (ONS), Fernando Cezar Maia (Grupo Energisa) e João Carlos Mello (Thymos).
Frederico informou que a Abraceel hoje dedica parte importante de seu tempo aos temas de formação de preços e segurança do mercado. Por isso, o foco do painel foi discutir o equilíbrio setorial e o momento muito delicado que os segmentos de comercialização, geração renovável e consumo atravessam, em que enfrentam crise relevante de falta de liquidez no mercado livre, e convivem com preços bastante altos.
O executivo frisou que esse cenário afeta profundamente a sustentabilidade econômico-financeira do setor e vem prejudicando fortemente a atuação das comercializadoras e dos geradores renováveis, que não encontram ofertas de venda e são expostos a PLDs elevados, o que acaba por dificultar a contratação de energia por consumidores, especialmente em prazos mais longos.
